Por Eng. Renato Castanho Savio Publicado em

Aditivos para concreto – o que são e como usar?

operário misturando aditivo impermeabilizante no concreto

Existem dezenas de produtos capazes de modificar o comportamento do concreto. Antes de tentar resolver um problema acrescentando água, cimento ou simplesmente torcendo para dar certo, vale verificar se existe um aditivo desenvolvido exatamente para aquela situação.

O concreto convencional é produzido basicamente com cimento, areia, pedra e água. Porém, é possível acrescentar pequenas quantidades de produtos químicos ou fibras para alterar determinadas características da mistura durante a concretagem ou depois que ela endurece.

Esses produtos podem facilitar bastante a execução da obra.

Imagine algumas situações bastante comuns:

  • a concreteira fica longe e o caminhão demora para chegar;
  • é necessário retirar as fôrmas mais rapidamente;
  • o concreto precisa apresentar baixa permeabilidade;
  • uma peça possui tantas armaduras que é difícil fazer o concreto preencher todos os espaços;
  • a concretagem será realizada em clima muito frio;
  • um piso industrial precisa resistir melhor a impactos e vibrações;
  • é necessário reduzir fissuras provocadas pela retração.

Para praticamente todos esses casos existem produtos específicos.

Em pequenas e médias obras, os aditivos ainda são vistos algumas vezes como materiais sofisticados, caros ou destinados apenas a grandes barragens, pontes e grandes obras. Na prática, vários deles foram desenvolvidos justamente para resolver problemas cotidianos da construção.

Mas existe uma regra fundamental:aditivo não é tempero de cozinha. Não coloque “um pouquinho a mais para garantir”. A dosagem precisa seguir a ficha técnica do fabricante e, em concretos estruturais, deve ser compatibilizada com o traço e com os demais materiais.

Aditivo químico, adição mineral e fibra não são exatamente a mesma coisa

No dia a dia da obra, é comum chamar tudo de “aditivo”. Tecnicamente, porém, convém fazer uma distinção.

Aditivos químicos são produtos normalmente utilizados em pequenas proporções para modificar propriedades do concreto fresco ou endurecido, como trabalhabilidade, tempo de pega, incorporação de ar ou permeabilidade.

Adições minerais, como sílica ativa, metacaulim e determinadas pozolanas, são materiais finos utilizados para modificar a microestrutura e o desempenho do concreto.

Fibras são pequenos elementos dispersos tridimensionalmente na massa. Podem ser de aço, polipropileno, polietileno, vidro resistente a álcalis ou outros materiais.

Todos podem melhorar o concreto, mas fazem coisas diferentes.

Plastificante: trabalhabilidade sem encher o concreto de água

Um dos erros mais comuns na obra acontece quando o concreto parece duro demais.

Alguém olha para a massa e diz: “Coloca mais um balde de água que melhora.”

Realmente melhora a facilidade de espalhar o concreto. O problema é que pode piorar sua resistência e durabilidade, porque aumenta a relação entre água e cimento.

Os plastificantes e superplastificantes foram desenvolvidos justamente para aumentar a fluidez sem acrescentar água.

Eles dispersam melhor as partículas de cimento, fazendo a mistura trabalhar com maior facilidade.

Dependendo do produto e da dosagem, é possível:

  • aumentar a trabalhabilidade mantendo aproximadamente a mesma quantidade de água;
  • reduzir a água mantendo a mesma consistência;
  • produzir concreto bombeável;
  • executar peças com grande concentração de armaduras;
  • produzir concretos de maior resistência e menor permeabilidade.

Os superplastificantes de gerações mais recentes são essenciais na produção de concretos muito fluidos e concretos autoadensáveis.

Retardador de pega: quando o relógio está correndo contra a concretagem

Imagine uma obra distante da central de concreto, em um dia muito quente, com trânsito pesado no caminho.

O concreto começa seu processo de hidratação desde que cimento e água entram em contato. Com o passar do tempo, perde trabalhabilidade.

Os retardadores de pega permitem prolongar esse período.

São úteis em:

  • longas distâncias de transporte;
  • grandes concretagens;
  • temperaturas elevadas;
  • situações em que se deseja reduzir o risco de juntas frias.

Mas retardador não significa que o concreto ficará mole indefinidamente. O efeito depende da dosagem, temperatura, cimento utilizado e composição do concreto.

Superdosagem pode provocar atrasos muito maiores que os desejados. Por isso, devem ser realizados ensaios prévios quando o desempenho for crítico.

Acelerador: quando é preciso ganhar tempo

O acelerador faz praticamente o caminho oposto.

Pode antecipar a pega ou principalmente aumentar o desenvolvimento das resistências iniciais.

Isso é interessante quando:

  • as fôrmas precisam ser retiradas rapidamente;
  • uma indústria de pré-moldados precisa reutilizar os moldes;
  • a obra trabalha em baixas temperaturas;
  • é necessário liberar determinado elemento estrutural rapidamente.

Existem aceleradores com diferentes formulações. Em concreto armado, deve-se verificar cuidadosamente se o produto é adequado ao contato com armaduras. Existem aceleradores modernos sem cloretos, desenvolvidos especificamente para evitar o aumento do risco de corrosão do aço.

Incorporador de ar: pequenas bolhas colocadas de propósito

No artigo sobre vibração do concreto explicamos que bolhas de ar aprisionadas são indesejáveis. Então parece estranho acrescentar um produto justamente para criar bolhas.

A diferença é que o incorporador de ar produz uma grande quantidade de microbolhas pequenas, estáveis e distribuídas de maneira controlada.

Em locais onde o concreto passa por ciclos de congelamento e degelo, essas pequenas câmaras dão espaço para acomodar a expansão da água quando ela congela, reduzindo danos internos.

Por isso, são muito usados em países de inverno rigoroso, pavimentos, pontes e estruturas externas.

O teor de ar precisa ser controlado. Ar demais também reduz resistência. Portanto, não é simplesmente colocar incorporador e considerar o concreto protegido do frio.

Impermeabilizantes para concreto

Existem diferentes tecnologias para reduzir a passagem de água pelo concreto.

Alguns produtos reduzem a absorção capilar; outros atuam formando compostos cristalinos dentro dos poros e capilares.

São utilizados em:

  • reservatórios;
  • piscinas;
  • subsolos;
  • fundações;
  • estações de tratamento;
  • túneis;
  • estruturas permanentemente sujeitas à água.

Mas existe um cuidado importante: nenhum aditivo conserta automaticamente concreto mal dosado, cheio de bicheiras, juntas mal executadas ou fissuras estruturais.

A estanqueidade depende do conjunto: traço adequado, relação água/cimento controlada, lançamento, adensamento, cura, juntas e detalhes construtivos.

Conheça alguns aditivos químicos disponíveis no mercado

A tabela abaixo apresenta exemplos de produtos comerciais e suas finalidades. Os nomes e linhas podem mudar ao longo do tempo e a disponibilidade depende da região. Antes de utilizar qualquer produto, consulte sempre a ficha técnica atualizada do fabricante.

Produto / fabricante Função principal Cuidado importante
Eucon 200 – Viapol Plastificante redutor de água, utilizado para melhorar trabalhabilidade e reduzir água de amassamento. O fabricante recomenda dosagem na mistura úmida e orienta evitar adicioná-lo diretamente aos materiais secos.
Eucon 211 – Viapol Plastificante para concretos usinados, bombeados e produzidos na obra. A dosagem deve considerar o cimento, a trabalhabilidade desejada e o traço utilizado.
SikaPlast 745 R – Sika Plastificante/superplastificante com redução de água e efeito retardador. Pode ser adicionado com a água ou ao concreto fresco; não deve ser lançado diretamente sobre a mistura seca. Superdosagem pode causar segregação e exsudação.
MasterGlenium SKY – Master Builders Solutions Linha de superplastificantes de alto desempenho para grande redução de água e elevada fluidez. A compatibilidade com cimento, adições minerais e demais aditivos deve ser verificada por ensaios prévios.
Eucon 211 R – Viapol Plastificante de pega prolongada para aumentar o tempo de trabalhabilidade. O tempo final de pega varia com dosagem, tipo de cimento e temperatura; faça testes antes de concretagens críticas.
MasterSure Z 60 – Master Builders Solutions Retentor de trabalhabilidade, útil quando é necessário manter a consistência durante períodos maiores. Deve ser compatibilizado com os demais redutores de água e com o tempo de transporte previsto.
Eucon BK SA – Viapol Plastificante de pega acelerada, bastante direcionado à fabricação de blocos e artefatos. A dosagem influencia diretamente tempo de desforma e características da mistura; siga a ficha do fabricante.
MasterSet AC 534 – Master Builders Solutions Acelerador de pega sem cloretos. Escolha o produto conforme temperatura, tipo de cimento e resistência inicial necessária. Não substitui cura adequada.
MasterAir AE 90 – Master Builders Solutions Incorporador de ar para concretos sujeitos a ciclos de congelamento e degelo. O teor de ar deve ser medido e controlado, pois excesso de ar pode reduzir a resistência do concreto.
MasterMatrix VMA 450 – Master Builders Solutions Modificador de viscosidade utilizado para aumentar coesão e reduzir segregação, especialmente em concretos muito fluidos. Deve trabalhar em conjunto com o traço e com o superplastificante adequado; excesso altera significativamente a reologia.
MasterLife SRA 035 – Master Builders Solutions Aditivo redutor de retração, utilizado para diminuir o potencial de fissuração associado à retração do concreto. Não elimina juntas, cura ou armaduras previstas em projeto. A dosagem deve ser definida no estudo do traço.
MasterLife CI 222 – Master Builders Solutions Inibidor de corrosão para estruturas de concreto armado expostas a condições agressivas. Não substitui cobrimento correto, concreto de baixa permeabilidade e demais requisitos de durabilidade.
Penetron Admix – Penetron Aditivo cristalizante para redução da permeabilidade e impermeabilização integral do concreto. A homogeneização é essencial. Na versão em pó, o fabricante alerta para não jogar o produto diretamente no concreto úmido, pois podem formar-se grumos.

Observe que alguns produtos têm funções combinadas. Um plastificante pode também retardar a pega; outro pode reduzir água e acelerar o endurecimento. Por isso, o nome comercial sozinho não basta para escolher um aditivo.

Posso misturar dois ou três aditivos?

Às vezes, sim.

Um concreto pode utilizar simultaneamente superplastificante, incorporador de ar e inibidor de corrosão, por exemplo.

Mas não misture os produtos entre si dentro de um balde antes de colocá-los na betoneira.

Algumas combinações podem ser incompatíveis ou produzir efeitos inesperados. Mesmo produtos individualmente corretos podem alterar:

  • tempo de pega;
  • quantidade de ar;
  • consistência;
  • segregação;
  • resistência inicial;
  • resistência final.

Quando vários aditivos forem utilizados, siga a sequência de adição recomendada pelos fabricantes e faça um traço experimental.

Fibras: milhões de pequenos reforços espalhados pelo concreto

Outra família muito interessante é a dos concretos reforçados com fibras.

Imagine distribuir milhares ou milhões de pequenos filamentos por toda a massa. Quando aparece uma fissura, várias dessas fibras atravessam sua trajetória e ajudam a limitar sua abertura ou transmitir esforços entre as duas faces.

Existem fibras muito pequenas, destinadas principalmente ao controle de fissuração nas primeiras horas, e fibras maiores capazes de melhorar significativamente o comportamento pós-fissuração da peça.

São muito utilizadas em:

  • pisos industriais;
  • pavimentos;
  • túneis;
  • concreto projetado;
  • tubos;
  • pré-moldados;
  • bases de máquinas;
  • estruturas sujeitas a impacto e fadiga.

Mas atenção: colocar fibras no concreto sem projeto não permite retirar automaticamente telas ou barras de aço.

Algumas fibras disponíveis no mercado

Produto / fabricante Tipo e utilização Cuidados na mistura
Fiberstrand – Viapol Microfibra de polipropileno utilizada principalmente para redução de fissuras por retração plástica e como reforço secundário. O fabricante recomenda mistura suficiente para dispersão completa, normalmente pelo menos 3 a 5 minutos em alta rotação.
TUF-STRAND SF – Viapol Macrofibra estrutural de polipropileno/polietileno para pisos, pavimentos e outras aplicações, aumentando resistência residual, ao impacto e à fadiga. A dosagem deve resultar de projeto. É indispensável garantir dispersão homogênea para evitar concentração de fibras em determinadas regiões.
Dramix – Bekaert / ArcelorMittal Fibras de aço com extremidades conformadas, utilizadas estruturalmente em pisos, túneis, fundações e pré-moldados. A adição precisa ser controlada para impedir a formação de aglomerados. Algumas linhas são fornecidas coladas em feixes que se desfazem durante a mistura, favorecendo distribuição uniforme.
SikaFiber Force PP-48 – Sika Macrofibra sintética estrutural de poliolefina utilizada em concreto reforçado com fibras. A Sika recomenda mistura suficiente para dispersão homogênea; a presença das fibras pode reduzir a consistência e exigir ajuste com redutor de água apropriado.

O maior problema das fibras: fazer todas elas se espalharem

Uma fibra funciona bem quando está distribuída pela massa.

Se várias fibras se juntarem formando uma bola, teremos duas situações ruins ao mesmo tempo: uma região com fibras demais e várias outras sem fibra alguma.

Por isso, o procedimento de mistura é fundamental.

Dependendo do produto, recomenda-se:

  • adicionar gradualmente as fibras;
  • misturá-las junto aos agregados;
  • evitar lançar grandes sacos de fibras de uma só vez;
  • manter a betoneira girando pelo tempo determinado pelo fabricante;
  • verificar visualmente a homogeneidade da mistura;
  • não acrescentar água para compensar automaticamente a perda de consistência.

Algumas macrofibras tornam o concreto aparentemente mais “pesado” ou menos fluido. A solução normalmente deve ser ajustada através do traço e de aditivos redutores de água, não com um balde improvisado de água.

Aditivo não recupera concreto ruim

Esta é talvez a informação mais importante deste artigo.

Aditivos conseguem melhorar muito um concreto corretamente projetado, mas não são remédios milagrosos.

Um impermeabilizante não corrige uma bicheira.

Um superplastificante não corrige areia contaminada.

Uma fibra não conserta uma fundação calculada incorretamente.

Um acelerador não compensa uma cura malfeita.

E nenhum produto consegue devolver ao concreto a resistência perdida porque alguém acrescentou vários baldes de água sem controle.

O resultado depende sempre do conjunto:

  • materiais adequados;
  • traço corretamente desenvolvido;
  • dosagem precisa;
  • mistura homogênea;
  • lançamento correto;
  • adensamento;
  • cura;
  • controle tecnológico.

Como usar corretamente um aditivo na obra?

Antes de utilizar qualquer produto, siga uma sequência simples:

  • Defina o problema. Você quer maior fluidez, retardar a pega, acelerar a resistência, reduzir permeabilidade ou controlar fissuração?
  • Escolha a tecnologia adequada. Produtos com aparência semelhante podem ter finalidades completamente diferentes.
  • Leia a ficha técnica. Verifique dosagem, forma de adição, compatibilidade, temperatura e limitações.
  • Faça um teste. Principalmente quando o concreto for estrutural ou quando combinar diversos produtos.
  • Meça a quantidade. Nada de despejar “meia garrafa” sem saber o volume ou peso.
  • Garanta a homogeneização. O produto precisa chegar a toda a massa.
  • Registre o que foi utilizado. Produto, lote, quantidade e volume de concreto são informações importantes para o controle da obra.

Em concreto fornecido por central, o ideal é informar antecipadamente à concreteira o desempenho desejado. Ela possui laboratório, traços desenvolvidos e sistemas de dosagem muito mais precisos que uma improvisação feita ao lado do caminhão.

Nunca acrescente um produto desconhecido ao concreto usinado sem autorização do responsável técnico e da fornecedora.


Resumo

  • Aditivos permitem modificar diversas propriedades do concreto fresco e endurecido.
  • Plastificantes aumentam a trabalhabilidade ou permitem reduzir a quantidade de água.
  • Superplastificantes produzem concretos muito fluidos sem simplesmente aumentar a relação água/cimento.
  • Retardadores aumentam o tempo disponível para transporte e lançamento.
  • Aceleradores favorecem pega ou desenvolvimento mais rápido das resistências iniciais.
  • Incorporadores de ar são importantes em concretos sujeitos a congelamento e degelo.
  • Aditivos cristalizantes e outras tecnologias podem reduzir a permeabilidade do concreto.
  • Existem produtos específicos para diminuir retração, inibir corrosão e controlar viscosidade.
  • Não existe uma forma única de adicionar todos os aditivos: siga sempre a ficha técnica do fabricante.
  • Fibras de polipropileno podem ajudar no controle da fissuração por retração plástica.
  • Macrofibras sintéticas e fibras de aço podem ter função estrutural, desde que dimensionadas em projeto.
  • A correta dispersão das fibras dentro da massa é fundamental.
  • Não retire telas ou armaduras simplesmente porque colocou fibras no concreto.
  • Nunca aumente arbitrariamente a dosagem de um aditivo esperando melhorar seu efeito.
  • Quando diferentes produtos forem combinados, verifique sua compatibilidade.
  • Aditivos melhoram um concreto bem projetado, mas não consertam materiais ruins ou execução incorreta.

O concreto parece uma receita simples: cimento, areia, pedra e água. Mas a tecnologia atual permite modificar profundamente o comportamento dessa mistura com alguns quilos — e às vezes poucos litros — de produtos especialmente desenvolvidos para isso.

Conhecer essas possibilidades pode evitar vários problemas de obra. Talvez você não precise colocar mais água no caminhão, esperar três dias a mais para desformar ou aceitar que aquela peça cheia de armaduras seja impossível de concretar.

Antes de improvisar uma solução, pergunte se não existe um aditivo desenvolvido exatamente para resolver aquele problema. É bem provável que exista.

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