Por Eng. Renato Castanho Savio Publicado em Atualizado em

Contrapiso armado com concreto usinado fck = 20 MPa, espessura de 8 cm

Execução de contrapiso armado

Um piso de concreto pode ter bom concreto e bastante ferro e, mesmo assim, trincar ou afundar. O segredo começa embaixo: solo firme, base compactada, tela bem posicionada e boa execução.

O contrapiso armado considerado neste artigo utiliza concreto usinado fck = 20 MPa, espessura de 8 cm e tela soldada Q-138.

O contrapiso armado com 8cm de espessura é uma solução relativamente robusta para situações de uso com cargas leves, como garagens residenciais para automóveis, depósitos com cargas moderadas, áreas técnicas e pisos sujeitos a maior circulação de pessoas, desde que o terreno, a base e as cargas previstas sejam compatíveis com a solução. A espessura de 8 cm, o fck de 20 MPa e a tela Q-138 são referências de composição, não uma garantia de capacidade de carga para qualquer situação.

Mas não confunda esse piso com um pavimento industrial. Se haverá caminhões, empilhadeiras, máquinas pesadas, estantes com grandes cargas concentradas ou equipamentos que produzam vibrações, 8 cm podem ser insuficientes. Nessas situações, é necessário dimensionar o piso considerando espessura, armadura, juntas, solo e cargas efetivas, com responsável técnico.

Um bom piso começa com um bom solo

Se o concreto será executado sobre o terreno, retire previamente terra vegetal, barro, entulho e materiais moles.

O solo precisa estar firme. Se precisar de aterro, deve ser executado em camadas compactadas. Se existir uma região de terra fofa sob o piso, ela poderá afundar e deixar o concreto sem apoio.

Outro cuidado importante é que o solo ruim nem sempre aparece na superfície. O terreno pode parecer firme ao caminhar sobre ele e esconder, alguns centímetros ou metros abaixo, uma camada de solo mole, antigo aterro mal compactado, restos de entulho ou material orgânico. Quando houver possibilidade financeira, recomendamos realizar uma sondagem do solo. Além de ajudar a conhecer a resistência e a sequência das camadas existentes sob a construção, a sondagem pode identificar aterros e informar a profundidade do lençol freático. Esse conhecimento é especialmente importante quando o terreno apresenta sinais de aterro, umidade elevada, afundamentos ou histórico desconhecido.

Antes da concretagem, convém também compactar cuidadosamente a camada imediatamente abaixo do contrapiso. Em áreas pequenas, esse trabalho pode ser feito com soquete manual, o tradicional pilão. Para áreas maiores, vale a pena alugar um equipamento mecânico: o compactador de percussão, conhecido na obra como “sapo”, é bastante utilizado em solos coesivos (argila) e locais confinados, enquanto a placa vibratória apresenta excelente desempenho em materiais granulares, como areia, pedrisco e determinadas bases de brita. Faça a compactação antes de instalar a lona, espaçadores e tela de aço. Se o solo continuar afundando, bombeando água ou apresentando aspecto “borrachudo” mesmo depois das tentativas de compactação, não esconda o problema sob o concreto: será necessário descobrir a causa e corrigir a base antes de executar o piso.

Uma camada de material granular (brita ou material graduado) bem compactada pode ajudar a regularizar e uniformizar o apoio, conforme as condições da obra. Não basta espalhar pedras soltas: a camada precisa ser especificada, nivelada e compactada adequadamente.

A execução de contrapiso sobre solo mal compactado pode resultar em fissuração do concreto, quebra localizada e diferenças de nível entre trechos do piso.

Concreto não conserta solo ruim: ele apenas esconde o problema por algum tempo.

Lona plástica sob o piso

Sobre a base regularizada e compactada, é uma boa prática instalar uma lona plástica de aproximadamente 200 micra (0,20 mm), com as emendas sobrepostas e sem perfurações. A lona preta comum pode funcionar como camada separadora e reduzir a perda de água para a base, mas sua espessura, sozinha, não comprova desempenho como barreira ao vapor para revestimentos sensíveis à umidade.

A lona pode reduzir a passagem de umidade proveniente do solo e a perda de água do concreto fresco para a base. Se houver exigência de barreira ao vapor, devem ser verificadas as propriedades e a instalação do produto especificado, inclusive a continuidade nas emendas e encontros.

Mas atenção: se o terreno apresentar problemas importantes de água, lençol freático elevado ou formação de poças d'água, a simples lona sob o concreto pode não resolver. Nesses casos é necessário estudar a drenagem e impermeabilização de forma específica.

Onde deve ficar a tela Q-138?

A tela soldada não deve ficar apoiada diretamente sobre o solo ou sobre a lona.

Para este tipo de piso com 8 cm de espessura, uma referência prática frequentemente utilizada é posicionar a tela aproximadamente na região intermediária da placa, usando espaçadores. Entretanto, a posição definitiva depende da função da armadura, do projeto e dos cobrimentos necessários; não adote a posição central como regra para qualquer piso.

Para conseguir isso, utilize espaçadores próprios para armadura, distribuídos em quantidade suficiente para que a tela não afunde quando os operários caminharem ou o concreto for lançado.

Evite aquela prática bastante comum de deixar a tela no chão e tentar puxá-la para cima com um gancho durante a concretagem. Ninguém consegue garantir onde a armadura realmente ficará.

Em um piso de 8 cm, deixar a tela 2 ou 3 cm fora da posição prevista representa uma diferença enorme.

Nas emendas, as telas precisam de transpasse adequado e fixação para que não se afastem durante a concretagem. Em obras pequenas, encontram-se referências práticas de cerca de 20 cm para telas como a Q-138, mas o comprimento correto depende do detalhamento e das condições de ancoragem; não trate 20 cm como valor universal.

Confira níveis e caimentos antes do caminhão de concreto chegar

Concreto usinado não espera o pedreiro decidir qual será a altura do piso. Antes da chegada da betoneira, deixe todos os níveis marcados e conferidos.

Verifique:

  • espessura aproximada de 8 cm;
  • cota final do piso;
  • encontro com portas e portões;
  • nível de pisos vizinhos;
  • posição de ralos e canaletas;
  • caimentos necessários.

Confira também as ferramentas. A régua de alumínio deve estar reta. Se utilizar mangueira de nível, verifique se não existem bolhas de ar, dobras ou estrangulamentos.

Em garagens e áreas externas, não deixe o piso completamente nivelado se houver necessidade de escoar água. Defina previamente o caimento para a rua, grelha ou canaleta.

Alguns milímetros de erro podem criar uma poça permanente exatamente no lugar onde você estaciona o carro.

Planeje a concretagem

Antes da chegada do caminhão-betoneira, confira se tudo está pronto:

  • base compactada;
  • lona instalada;
  • tela posicionada sobre espaçadores;
  • formas laterais firmes;
  • níveis marcados;
  • réguas e ferramentas disponíveis;
  • equipe suficiente para espalhar e acabar o concreto.

O concreto deve ser distribuído sem deslocar a tela. Utilize pás e enxadas para espalhar a massa e régua de alumínio ou régua vibratória para auxiliar no nivelamento e adensamento.

O concreto precisa ficar bem adensado, principalmente junto às bordas, cantos, canaletas e outras regiões onde podem se formar vazios.

Evite vibração excessiva, que pode provocar segregação dos componentes.

E não acrescente água ao concreto usinado simplesmente porque ele está difícil de espalhar. O excesso de água reduz a resistência, aumenta a retração e favorece fissuras.

Grandes áreas precisam ser divididas

Todo concreto retrai quando endurece. Além disso, pisos externos esquentam durante o dia e esfriam à noite, movimentando-se constantemente.

Se você executar uma enorme placa sem juntas, provavelmente o concreto criará suas próprias juntas na forma de trincas aleatórias. Por isso, pisos maiores devem ser divididos em painéis por meio de juntas adequadamente planejadas. As juntas serradas de retração procuram induzir a fissuração em posições previstas; já as juntas de isolamento separam a placa de pilares, paredes ou outros elementos, e as juntas de construção são utilizadas em interrupções planejadas da concretagem. Não são todas a mesma coisa.

Como orientação prática para uma obra pequena, não execute uma placa contínua chegando a dimensões da ordem de 6 m × 6 m sem prever juntas. Para uma placa relativamente delgada de 8 cm, essa dimensão pode ser excessiva: frequentemente são necessários painéis bem menores. O espaçamento deve considerar espessura, retração, geometria, condições de apoio e cargas, em vez de adotar 6 m como módulo recomendado.

Procure formar painéis aproximadamente quadrados, evitando faixas muito compridas e estreitas.

Também merecem atenção:

  • encontros com pilares;
  • quinas;
  • mudanças de largura;
  • cantos reentrantes;
  • encontros com construções existentes.

Nesses locais é comum surgirem fissuras.

As juntas podem ser previstas durante a concretagem ou executadas posteriormente por corte com serra apropriada. O corte deve ser realizado assim que o concreto tiver resistência suficiente para não sofrer desagregação nas bordas, mas antes que ocorram fissuras aleatórias de retração. Em algumas obras isso acontece no mesmo dia; em outras, mais tarde. Esperar obrigatoriamente até o dia seguinte pode ser tarde demais. A profundidade do corte e a janela de serragem devem ser compatíveis com a espessura da placa e o equipamento utilizado.

Para grandes áreas, geometrias irregulares ou pisos sujeitos a cargas importantes, vale a pena obter orientação técnica específica para definir as juntas.

Olhe a previsão do tempo antes de concretar

Se o piso estiver em área externa, verifique a previsão do tempo.

Uma chuva forte logo após a concretagem pode lavar a pasta de cimento da superfície, marcar o piso e prejudicar seu acabamento.

Por outro lado, sol muito forte e vento aceleram a evaporação da água, aumentando o risco de fissuras enquanto o concreto ainda está fresco.

Se houver previsão de chuva intensa e você não tiver condições de proteger toda a área, adie o serviço. É muito mais barato remarcar a betoneira do que tentar recuperar centenas de metros quadrados de concreto danificado.

Cura: o concreto precisa de água depois de pronto

Terminou o acabamento? O serviço ainda não terminou.

O cimento precisa continuar reagindo com a água para desenvolver resistência. Por isso, depois que a superfície estiver sarrafeada e firme o suficiente, faça a cura úmida.

Mantenha o piso úmido durante os primeiros dias, principalmente sob calor, sol e vento. Como orientação prática para pequenas obras, procure manter a cura por pelo menos 5 a 7 dias, sempre que possível. O prazo necessário pode ser maior, conforme o concreto, o clima, o método de cura e a especificação do serviço; essa faixa não substitui o período previsto para a obra.

Podem ser utilizados métodos como molhagem periódica, colocar mantas úmidas, mantas ou tecidos limpos mantidos úmidos, ou outros sistemas que evitem a secagem rápida da superfície.

Não basta jogar água uma vez pela manhã e deixar o concreto secar completamente durante o restante do dia. O objetivo é conservar a umidade, molhar várias vezes ao dia.

Também evite tráfego prematuro. O concreto pode parecer duro no dia seguinte, mas ainda está desenvolvendo resistência. Concreto jovem engana: parece pedra muito antes de realmente estar pronto para trabalhar como previsto.

Vai receber outro revestimento?

Se posteriormente forem executados outros serviços, como camada de regularização ou instalação de porcelanato, cerâmica, piso vinílico, pintura epóxi etc.; deixe o concreto curar adequadamente antes de iniciar a próxima etapa.

Revestimentos como vinílicos e determinadas resinas são particularmente sensíveis à umidade existente no concreto. Nesses casos, siga as recomendações do fabricante do revestimento e, quando exigido, verifique a umidade residual antes da aplicação.


Resumo

  • Esta composição utiliza concreto usinado fck = 20 MPa, espessura de 8 cm e tela Q-138.
  • Pode ser uma solução para usos leves, como garagens residenciais e depósitos com cargas moderadas, quando o apoio e as cargas forem compatíveis.
  • Para caminhões, empilhadeiras, máquinas ou grandes cargas concentradas, procure orientação técnica para dimensionar o piso.
  • O solo e a base precisam estar firmes e bem compactados.
  • Sobre o solo, a lona plástica pode ajudar a reduzir umidade ascendente e perda de água do concreto para a base.
  • A tela Q-138 deve ficar dentro da espessura do concreto, apoiada sobre espaçadores.
  • Não deixe a tela no chão para depois tentar puxá-la durante a concretagem.
  • Confira níveis, espessura e caimentos antes da chegada da betoneira.
  • Não adicione água indiscriminadamente ao concreto usinado.
  • Faça o adensamento e nivelamento cuidadosamente.
  • Planeje juntas de retração, isolamento e construção conforme a situação, para controlar a fissuração.
  • Evite placas muito grandes ou excessivamente compridas e estreitas.
  • Em áreas externas, consulte a previsão do tempo antes da concretagem.
  • Proteja o concreto fresco contra chuva forte, sol intenso e vento.
  • Faça cura úmida, preferencialmente durante pelo menos 5 a 7 dias.
  • Evite tráfego e carregamento prematuros.

Um contrapiso armado de 8 cm é uma solução relativamente simples e acessível, mas seu bom desempenho depende muito mais da execução do que aparenta. Base ruim, tela no chão, excesso de água ou ausência de cura podem desperdiçar a qualidade do concreto comprado.

Se você não puder contratar um projeto específico para um piso resistente, trabalhe de forma conservadora: prepare muito bem a base, mantenha a tela corretamente posicionada, controle os níveis, divida áreas grandes em painéis com juntas apropriadas e cuide da cura. São cuidados baratos que evitam alguns dos erros que podem custar caro para corrigir.

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